A onda da busca poética por um propósito não passa disso – uma moda de gestão – exceto se for enraizada na compreensão sistêmica e genuína sobre este mundo e nosso impacto nele.

A busca por propósito é parte de uma sede maior, por significado, característica deste terço de século XXI.  Nossa rotina de dias longos e anos curtos, a sensação de que nada será como antes, a angústia de assumir que não controlamos a próxima página da agenda, trazem uma enorme sede por significado, seja ele individual ou coletivo.

Neste contexto as organizações, que são o palco coletivo onde vivemos nossos papéis individuais, são cada vez mais chamadas a responder às perguntas trazidas pelo mundo, pela sociedade, pelo planeta, pelas pessoas. São vozes mais diversas e complexas do que aquela que tradicionalmente era a única escutada, do acionista. São questões que obrigam a organização a se olhar no espelho e refletir. Esta reflexão deve seguir duas trilhas de conscientização simultâneas – e aparentemente paradoxais – de aprofundamento e ampliação:

  • aprofundamento do entendimento de sua identidade;
  • ampliação da percepção de suas fronteiras de impacto.

Mas como uma organização pode articular esta jornada de compreensão autêntica e pragmática, escapando dos abusos das causas umbilicais (por um lado) e dos slogans de marketing (por outro)?

Esta jornada do herói tem como personagem fundamental a “cultura organizacional”, este ente abstrato conformado pela interação e interferência de inúmeras relações de indivíduos e equipes – cada qual com suas próprias sensações, significados, aspirações e frustrações.  Ao longo de muito tempo estas reverberações se condensam como uma grande rede na dimensão de relações humanas da organização, tornando-se um organismo vivo, que chamaremos de “companhia”.

A jornada tem início com a companhia observando-se no espelho, tomada pelas novas questões que surgem. Subitamente se dá conta de sua enorme sede por significado, como se um vácuo de identidade permeasse seu espírito. Que perguntas a companhia tem? Talvez não sejam tão diferentes das perguntas que pessoas comuns tem quando se encontram nas encruzilhadas da vida:

“O que importa de fato para mim?”

“O que eu preciso aceitar e o que tenho que desafiar?”

“Qual o sentido de minhas ações?”

Esta trilha de reflexões leva a companhia a buscar em si mesma – em sua história – elementos em que possa estabelecer bases confiáveis acerca de si mesma, afinal sua trajetória é a melhor evidência de quem ela de fato é. Em um processo de autodescoberta  encontra casos de enorme sucesso e doloridos fracassos, imagens de líderes que se foram, cores de tantos rostos e equipes. Finalmente seu mergulho produz pistas de suas genuínas causas, valores, crenças e princípios.

Porém, ao compreender mais sobre si mesma e sua trajetória, uma nova e incrível descoberta surge:

“Eu existo em um mundo que é impactado pela minha existência”

A constatação faz surgir novas perguntas que precisam de investigação:

“Estes meus valores e princípios tem eco nesta sociedade?”

“Como quero impactar esta realidade onde atuo?”

Ao ponderar sobre estas questões um insight surge de repente, um clarão na caverna mental da companhia:

“Mas afinal de contas, o que será que penso sobre este mundo em que vivo?”

A companhia percebe que jamais havia considerado esta pergunta, pois a realidade que enxergara até então era constituída por dimensões bastante claras de mercados, segmentos e produtos, crescimentos e participações. Havia clientes e colaboradores, inovações e agilidade, mas limitados à dimensão direta do retorno econômico do próprio negócio.  A companhia se dá conta de que observara as sombras da caverna de Platão, e compreende que há um mundo mais amplo e real, feito de pessoas, sociedade, clientes, negócios, natureza, sentimentos, todos interconectados. Mais complexo, desafiador e rico, é o próprio molde que permite a ela viver, crescer e se desenvolver.

Surpresa e feliz, a companhia inicia uma nova e instigante jornada interior guiada por algumas questões:

“O que eu penso sobre este mundo em que existo?”

“Para onde eu gostaria que este mundo caminhasse?”

“Meus impulsos impactam o mundo neste mesmo sentido?”

Agora seus valores, princípios e crenças ganham um novo significado e uma ampliada potência, pois estão harmonizados com uma visão de mundo e do impacto que ela deseja causar. É possível afinal desvelar o propósito autêntico.

Pacificada, a companhia pode seguir seus impulsos de vida, e cada uma das pessoas de sua grande rede acorda a cada nova manhã com uma probabilidade maior de sentir-se um pouco mais preenchida de significado em seu trabalho. Sua jornada coletiva de evolução alcança um novo início.

Esta jornada arquetípica da companhia não é o caminho mais fácil. Talvez seja a trilha menos pisada (do poema de Robert Frost). Mas a sede que temos pelo significado não será saciada pela divulgação de um  “propósito” autocentrado. Temos que responder coerentemente e de maneira íntegra a estas perguntas da nossa época, percorrendo com coragem a jornada simultânea de aprofundamento na identidade e ampliação das fronteiras de impacto.

 

Marcos Thiele
Adigo Desenvolvimento

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