Desde a antigüidade, esse tipo de orientação ajuda pessoas a ampliarem a visão sobre si mesmas e a descobrirem novas oportunidades. 
“Mentoring”. Qual é o significado desta palavra cada vez mais presente no mundo dos negócios? Escrita no século VIII a. C., Odisséia, a famosa obra de Homero, já mencionava a importância desde conceito para a humanidade.
De acordo com a história do livro, Ulisses, rei de Ítaca, confia a seu sábio e fiel amigo Mentor os cuidados e a educação de seu filho Telêmaco, logo após partir para a Guerra de Tróia. Muitos anos depois do término do conflito, porém, Ulisses ainda não havia conseguido voltar ao lar – o que faz Telêmaco querer partir em busca de notícias do pai. Por ser muito novo para partir sozinho, o garoto segue viagem acompanhado por Mentor e dele recebe suporte, orientação, inspiração e coragem para seguir em direção a seu objetivo. Foi Mentor o responsável pela educação de Telêmaco, pela formação de seu caráter, valores e pela sabedoria de suas decisões. Além disso, muitas vezes, Palas Atena, a deusa da sabedoria, assumia a forma de Mentor para iluminar ainda mais o caminho de Telêmaco que, no final da jornada, amadurecera e já tomara decisões independentemente.
Mentor, porém, era um personagem de pouco significado na Odisséia e só assumiu importância quando Fénelon, nome literário do escritor francês François de Salignac de la Mothe, escreveu “As Aventuras de Telêmaco”, em 1699 – uma releitura da Odisséia que eleva Mentor à condição de segundo pai, professor, orientador e guia de Telêmaco. Já em 1750 a palavra “mentor” passou a figurar nos dicionários de francês e inglês como sinônimo de “conselheiro sábio”, além de “protetor” e “financiador”.
“Apesar da origem moderna das práticas de mentoring ser atribuída a Fénelon, existem evidências na África de que a prática de mentorear pessoas é anterior até mesmo à civilização grega. No entanto, apenas na década de 1990 a palavra chegou ao vocabulário dos negócios”, explica Janete Dias, coordenadora da área de gestão de carreiras da Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) e da Faculdade Módulo. “Hoje, mentor é, geralmente, um executivo que adquiriu senioridade, liderança e reconhecimento profissional e que, assim como uma espécie de padrinho ou tutor, ‘adota’ um jovem empregado, no qual se detectou algum potencial acima da média, servindo-lhe de orientador na sua carreira, de professor na sua especialidade, de conselheiro e até mesmo de protetor em sua ascensão dentro da empresa”, completa.
Para o especialista em Recursos Humanos da Adigo, Jair Moggi, autor do livro “Assuma a direção da sua carreira” (editora Elsevier), o mentoring pode ser definido como uma atividade próxima à do professor. “O que é um bom professor?”, questiona Moggi, “É alguém reconhecido pela comunidade como uma pessoa com conhecimentos, habilidades e atitudes coerentes e diferenciadas numa determinada área de conhecimento”, afirma. “Quando uma pessoa tem necessidade de aprender ou se desenvolver, procura um mestre, alguém com um passado irrefutável, que tem paixão pelo que faz e que já tem conhecimentos e experiências metamorfoseados em sabedoria e que se predispõe a disponibilizá-la sem maiores interesses.”
Como escolher um mentor?
De acordo com Dias, há dois tipos de escolha de mentores: a que ocorre naturalmente, considerando o grau de amizade, coleguismo, parentesco e/ou relacionamento informal; e a planejada, cuja escolha é feita por meio de programas estruturados em que mentores e participantes são selecionados por um processo formal. “O sucesso de todo o programa depende da adequada designação dos mentores. Nos programas estruturados, os mentores são recrutados de várias fontes, incluindo empresas, comunidades profissionais e religiosas, como também membros de comunidades. Os mentores precisam ser devidamente treinados e orientados sob uma metodologia específica”, explica.
E o que caracteriza um mentor? Para Moggi, a principal característica de um mentor é a sua disponibilidade para servir. “São pessoas desprendidas, que têm o genuíno interesse em ver o próximo atingir seus objetivos de forma autônoma, com virtudes e até defeitos. São pessoas que conseguem colocar os outros à vontade, a partir de uma relação de confiança mútua e de afinidade com foco na ampliação da consciência das pessoas com as quais interagem, numa relação caracterizada pelo ‘mestre que caminha ao lado do aprendiz’ e não ‘do mestre que fica no alto da cátedra’. A pessoa que não tem essas qualidades pode ser um coaching, um líder, um tutor mas não será um mentor”, afirma Moggi.
Segundo Dias, os termos mentoring e coaching designam atividades bem parecidas, porém dentro de escopos sensivelmente diferentes. “Enquanto o termo coaching é utilizado para o relacionamento visando à melhoria de desempenho dentro de uma área de competência, mentoring tem um sentido mais amplo: os mentores são sempre facilitadores que ajudam os mentorados a descobrir as direções que querem tomar, não tendo a intenção de aumentar o desempenho num trabalho específico”, diz.
Em outras palavras, o mentoring serve para ampliar a visão do mentorado sobre si mesmo, do mundo, das oportunidades e das estratégias e possibilidades de carreira, evitando que o mentorado cometa erros já conhecidos por seu mentor.
“No contexto da dinâmica organizacional, o mentoring, quando bem feito, serve para reconhecer, prestigiar, potencializar e disponibilizar a sabedoria acumulada por uma pessoa ao longo do tempo, com base numa relação de confiança mútua, o que tem efeitos benéficos no processo de aprendizagem e de desenvolvimento do ‘mentorado’ e no clima organizacional. É importante ressaltar que, por ser uma relação voluntária e de confiança, não pode ser muito estruturada”, esclarece Dias.
A coordenadora explica que profissionais efetivamente bem sucedidos na carreira quase sempre tiveram consciente ou inconscientemente uma ou várias pessoas que serviram como referenciais ao longo da sua biografia pessoal e profissional. “Quando essa relação é consciente, ela é potencializada já que o mentor, além de ser um bom espelho, é alguém que, a partir da sua história, pode mostrar a realidade como ela é e, também, apoiar na construção de estratégias e alternativas criativas de trabalho”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *