Por Jair Moggi
“A evolução se desenrola na direção de uma crescente complexidade que é acompanhada por uma correspondente elevação do nível de consciência”
Teilhard de Chardin
No começo da década de oitenta, ainda não se falava e nem se conhecia – pelo menos nos círculos maiores – toda a parafernália de conceitos e siglas ligados à gestão de empresas tão comuns hoje, tais como Qualidade Total, JIT, Kanban, análise de valores, CCQ, e, mais recentemente, reengenharia, benchmarking, etc. Para quem se lembra, vivía-se nessa época o final (pelo menos, era o que acreditávamos) de uma das maiores crises estruturais da economia brasileira.
No plano político mais geral, o Partido dos Trabalhadores consolidava-se a partir do ABC paulista e iniciava-se o movimento pelas Diretas Já. Desde então, temos andado muito pelo país prestando consultoria, vivendo nas entranhas das empresas, dando palestras, participando de debates, ensinando o que aprendemos e aprendendo a cada dia com empresários, executivos, técnicos e operários, descobrindo junto com eles o seu potencial, as suas questões e apoiando-os nas decisões de dar o próximo passo na direção da mudança.
Nos últimos tempos, notamos que há algo de novo no ar que permanece no horizonte e funciona como uma megatendência que irá influenciar todas as demais megatendências, dando mais sentido e mais direção para as rápidas mudanças desta virada de século. Essa megatendência nos puxa para o futuro e será o sinalizador para nos orientar dentro de um mundo que insiste em se mostrar permanentemente mutante. Esse sinal é o que chamamos de processo de individuação do ser humano, que é um fenômeno que está ocorrendo em todos os quadrantes do planeta. Esse é o fato novo que, acreditamos, está saindo das especulações filosóficas e da cultura “new age” para cair dentro das organizações e dos negócios.
Dos grandes movimentos de massa – que, não por acaso, coincidiram com o grande consumo de massa –, como a Revolução Russa de 1917, o nazifascismo a partir da terceira década do século, ou ainda os protestos urbanos da década de 60, os movimentos estão se deslocando mais para o indivíduo, esse ser único e inimitável, multifacetado e tantas vezes surpreendente, que, afinal, é quem dirige, é a razão e quem dá sentido às empresas, às máquinas e a todos os grupos sociais nos quais nos inserimos. Esse fenômeno pode ser percebido dentro das nossas próprias casas. Para quem tem filhos pequenos, basta lembrar como era a nossa relação como nossos pais na idade deles e refletir sobre a natureza da relação deles conosco e com os demais adultos. Se você não tiver filhos pequenos , pense nos filhos dos amigos, nor irmãos menores ou nos sobrinhos, e reflita sobre o que há de novo com essas crianças que serão os adultos do século XXI.
O novo é que eles não aceitam mais ordens. Eles querem – e exigem – saber o porquê de tudo antes de se disporem a uma ação. Contam, também, com informações suficientes para tomar decisões inimagináveis na nossa geração. Têm opiniões sobre praticamente todos os assuntos – experimente discutir política com eles – e julgam os adultos com base nas suas posições e na sua natural ingenuidade e imaturidade emocional. Esse não é um fenômeno que acontece apenas nas classes mais esclarecidas ou privilegiadas das grandes cidades brasileiras, é universal. Se você duvida, visite creches e converse com as crianças nas ruas, no Brasil e em outros países – e ficará bem claro sobre o que estou falando.
O próprio movimento das crianças de rua nas grandes cidades brasileiras reflete essa mudança. Você conhece alguma mãe que se atreva a vestir dois gêmeos com roupas iguais, tal como se fazia anos atrás? Os pais – muitas vezes estimulados pelas próprias crianças – já compreendem o fenômeno da individuação, embora nem sempre o saibam conceituar.
Outros fenômenos apontam na mesma direção. Um deles é o do crescente papel da mulher na sociedade. Não se trata apenas dos postos que elas ocupam no mercado de trabalho – embora isso seja de fundamental importância para uma nova leitura das organizações, pois estas ganham um caráter diferente, ao incorporar a figura feminina e os valores femininos à sua estrutura. Mas é também o papel representado pela dona de casa que não se contenta mais com a velha história de ser “uma grande mulher atrás de um grande homem”. Hoje se sabe que a mulher – trabalhe ou não fora de casa – tem o mais importante papel na decisão de compras, nas opções sobre o trabalho do homem, sobre a moradia da família e sobre tantas outras coisas mais. Isso sem falar nos milhões delas que chefiam o próprio grupo familiar – um fenômeno novo, muito forte no Brasil, e que vem se acentuando gradativamente desde o pós-guerra.
Quanto às minorias é possível afirmar que se há alguma coisa que possa definir melhor a década passada, isso há de ser a luta das minorias. Velhos, deficientes, gays, portadores de várias doenças, membros de raças ou de castas minoritárias – todos eles deram as caras e tentaram impor seus direitos (em parte com sucesso) nos anos 80. Ou seja, essa história de que a maioria decide, ou de que a maioria sempre tem razão (uma característica das sociedades de massa), caiu por terra definitivamente. De tal forma que as organizações minoritárias continuam a existir e a se multiplicar pelo globo.
Empresários e executivos também se mostram sensíveis à sua própria individuação. Quem faz consultoria na vertente como nós fazemos, têm-se deparado, cada vez mais, com pessoas – nos mais diferentes níveis, dentro das empresas – que trocam, de bom grado, altos salários e fringe beneficits por satisfação pessoal. A onda da terceirização e a tecnologia do computador têm ajudado os mais radicais desses indivíduos a concretizar seus sonhos de se tornar independentes das organizações e de tomar seu destino nas próprias mãos.
A cidadania tornou-se um valor do qual ninguém mais abre mão. Em muitos países do mundo, empresas que desrespeitam esse direito básico – seja poluindo o meio ambiente, tendo uma política de Recursos Humanos ultrapassada ou infringindo as normas de bem-conviver (por exemplo, utilizando-se de recursos antiéticos nas suas relações com o mercado ou com o governo) – são simplesmente levadas à falência pelo mercado consumidor, que se nega a adquirir seus produtos e serviços.
Muitos consumidores de todo o planeta demonstram seu processo de individuação também de outras formas: são capazes de abandonar um produto ou serviço de preço menor por outro que tenha agregado um atendimento melhor, de deixar na prateleira um produto aparentemente mais “eficiente” e levar outro que tenha características que causem maior satisfação (como design mais moderno, marca mais “confiável”, sabor mais agradável, facilidade de operação, serviço de pós-venda, assistência técnica garantida etc).
A revolução da individuação está aí para quem quiser ver. E muitos administradores das empresas brasileiras têm visto – possam ou não conceituá-la –, o que se traduz numa nova postura de empresários e executivos na condução dos negócios.
Evidentemente, para isso muito tem colaborado a crise estrutural da economia brasileira – mas quem disse que as mudanças surgem por geração espontânea, sem crises? A diferença entre a atual crise e as que nos afligiram nas décadas passadas é que, agora, temos, também, a necessidade de o país se inserir na economia mundial marcada pelo excesso de competitividade, pelas rápidas mudanças e pelo respeito à individuação. Isso exige dos administradores brasileiros ações empresariais criativas e ousadas que estejam sintonizadas com os novos tempos. As sombras do futuro já se fazem presentes para muitos que conseguem antevê-las.
Os novos tempos chegarão muito antes do que se pensa e os paradigmas que deverão viger nas primeiras décadas do próximo milênio serão inspirados por essa megatendência da individuação.

Aproximando o foco do fenômeno da individuação

Você se lembra que, na faculdade, ou em qualquer curso de administração ou de organização, quando alguém fazia referência à estrutura de uma empresa ou de um negócio, invariavelmente as pessoas se referiam a uma pirâmide; a famosa pirâmide organizacional! De onde vem essa imagem? Ela vem do antigo Egito. Nas nossas lições de história geral, aprendemos que quem morava no topo da pirâmide egípicia era um ser meio humano, meio divino, o faraó.
O faraó era o centro do universo, era o possuidor de tudo no império, das terras, dos rios, das pontes, dos animais, da vida e da alma das pessoas e não precisava prestar contas a ninguém. Quando morria levava para o túmulo seus auxiliares mais próximos. Essa figura concentrava em si os poderes teocráticos, jurídicos, econômicos e administrativos. Enfim, era como um “eu coletivo” para todas as pessoas. Essa é uma imagem tão arquetípica para a humanidade que se reflete em todas as culturas e civilizações – note que sempre existiu a necessidade de os seres humanos, num determinado estágio do seu desenvolvimento, apelarem para um “eu coletivo” que os represente. Esse fenômeno também é perceptível na organização social de alguns animais, como as abelhas, as formigas, numa matilha de lobos ou num bando de macacos. A diferença é que, na medida em que se tornamos mais evoluidos cultural e espiritualmente, nós, os seres humanos nos libertamos desse “eu coletivo”.
Senão, vejamos: se avançarmos um pouco mais na história das civilizações, quais são os fatos que constatamos? Que esse poder total detido pelo faraó sofreu o primeiro baque na Grécia, com a Democracia. Pois o ser humano, nesse estágio, já podia pensar por si – o nascimento da filosofia e da lógica é uma conseqüência disso. Roma, a civilização seguinte, incorpora a noção do direito civil, criando o conceito de direito de propriedade, o que abala ainda mais o poder do faraó originário. Com a estruturação do cristianismo, o poder teocrático, que era também centralizado no faraó, se desfaz.
Para encurtar a história, temos, ao longo da Idade Média, intensas lutas envolvendo a igreja e reinados para consolidar o poder temporal sobre nações e regiões. Vemos, a seguir, nas revoluções americana e francesa, os ideais dos direitos do homem e dos princípios de Liberdade, Fraternidade e Igualdade a serem inscritos como valores fundamentais do ser humano. Esses princípios, ainda que consagrados, ainda não estão implantados nas sociedades de todo o mundo, mas vêm-se tornando, a cada dia deste século, mais presentes na medida que as pessoas se emancipam e o maniqueismo ideológico se evapora.
Isso se deve, em grande parte, à incorporação aos processos decisórios, individuais e coletivos, de amplos setores sociais (primeiro, os escravos, enfim libertos, depois as mulheres, as crianças e as minorias). Na medida que a individuação se torna um vetor universal, os valores mais tipicamente humanos (e os da Revolução Francesa são um bom exemplo disso) tornam-se mais importantes. É por isso que, hoje, de uma simples idéia – e não apenas do capital acumulado – pode nascer um império, como a Aple norteamericana. Alguém imaginaria isso possível tempos atrás? Não, nas fases anteriores, era preciso juntar tostão por tostão para criar uma grande empresa.
Idéias, valores, símbolos – estes são o grande capital da nossa era. É disso que se alimentam as pessoas, é isso o que elas procuram: identidade com as demais pessoas, com as empresas, com as marcas, com um ideal, com os produtos e com os serviços. Esta é a marca do novo tempo, uma megatendência que influenciará, daqui para frente, todas as outras. O impalpável, o simbólico, o espiritual ou o tipicamente humano é o que predominará nas próximas décadas. As artes terão mais valor do que os esportes, a sensibilidade e a beleza serão cada vez mais procuradas, a ética não poderá ser descartada jamais, a verdade e a transparência serão cada vez mais valorizadas nas relações.
Não podemos predizer a velocidade com que essas características da individuação se instalarão na vida das pessoas e das organizações, mas que essa tendência é um fato incontestável, não temos dúvidas – apesar dos faraós renitentes que ainda não perceberam que até podem ser donos da mão de obra que as pessoas representam, mas não podem ser donos dos seus pensamentos e dos seus sentimentos.
Se apelamos para essa rápida digressão histórica foi para mostrar essa tendência inexorável no sentido da individuação do ser humano, e que as empresas que insistirem em o paradigma antigo nos seus processos de gestão sem levar em conta esse megatendênciaa estão, na contra-marcha da história.
Quem Viver verá!

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