“O pensamento puramente lógico não nos proporciona cognição do mundo real”

Albert Einstein

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos.”

Antoine de Saint-Exupéry

O Pensar, Sentir e Querer

Um dos arquétipos de base Antroposófica mais conhecidos e difundidos é o da Trimembração. Neste artigo, vou priorizar este conceito aplicado a três aspectos da existência humana: o Pensar, o Sentir e o Querer. Já perceberam como nosso corpo é trimembrado? Temos a cabeça, o tronco e os membros, como aprendemos desde pequenos; nossos dedos têm, todos, três falanges; nosso braço é dividido em mão, antebraço e braço; em nossa cabeça, há a região dos olhos que veem, o nariz e as orelhas, que trocam e interpretam o ambiente, e a boca que fala.

Em nossa calota craniana, temos a sede do sistema neurossensorial: o cérebro, que é detentor da consciência. Ele é, de certa maneira, frio e estático, se comparado aos outros órgãos, embora sua atividade seja intensa através das redes neuronais. É nele que localizamos a faculdade do Pensar, que – quando saudável – é racional, lógico, consistente e claro. Tudo o que vemos e sentimos é captado e identificado: os sabores, cheiros, sons, imagens… É como se ele interpretasse, desmaterializasse a matéria e nomeasse sua essência.

O Pensar, Sentir e QuererEm nosso sistema metabólico-motor, vemos o pensar em ação. Se quero pintar uma tela, levo a ela a imagem que tenho em mente, por meio das minhas mãos, que em pinceladas desenvolvem minha expressão. É nesse sistema de ação que encontramos a faculdade do Querer, que, em oposição ao Pensar, é quente.

O processo digestivo é um ótimo exemplo disso: ele processa as substâncias necessárias e desnecessárias para nós. Já os nossos órgãos reprodutores geram vida, por meio de seus ciclos hormonais. É também no Querer que reproduzimos ações inconscientes, hábitos ou respondemos instintivamente ao ambiente.

Quanto ao sistema rítmico – composto por coração, pulmões e sistema circulatório –podemos localizar a faculdade do Sentir. É nessa dimensão que construímos uma ponte entre o Pensar e o Querer: sendo um ambiente de troca com as circunstâncias externas, ele pode ser frio ou quente, antipático ou simpático às situações às quais entramos em contato. Nosso Sentir revela, por exemplo, uma grande alegria ao recebermos uma boa notícia ou fortes batimentos cardíacos quando encontramos alguém que amamos.

O Pensar do Coração

Com o contexto atual, ficou clara a nossa necessidade por mudança, de comportamento principalmente. Máscaras, álcool 70º, o distanciamento social, as reuniões online: desafios do início de 2020, que hoje já parecem ter sido incorporados ao nosso dia a dia.

Estes são os pontos mais práticos e concretos que afetaram muito nossa rotina, mas e quanto a um órgão do sentido que pode ser melhor trabalhado e desenvolvido?

Com este texto, pretendo discutir um pouco O Pensar do Coração como o próximo nível de consciência que podemos alcançar como indivíduos, líderes e sociedade, a partir da base do pensamento antroposófico.

Ter consciência do coração é então um desafio – embora falar dele seja uma das coisas mais simples. Quantas músicas, poesias e filmes já foram criados a partir do amor? O amor é o principal sentimento atribuído ao coração.

Ele é o centro do nosso corpo: dele saem as artérias que levam o oxigênio aos nossos órgãos, e então a vida é transportada para o corpo. O coração está entre a cabeça e a barriga. É possível dizer que, como ele é composto por neurônios de mesma natureza do nosso sistema cerebral e por uma musculatura como a do nosso sistema metabólico motor, pode ser considerado um grande centro de interpretação das instâncias do pensar e do querer: ele dá ritmo à nossa existência.

Podemos dizer também que ele acolhe o que há de consciente na cabeça (passado) e aquilo que é imprevisível no fazer e na ação, nossas reações inconscientes (futuro).

ConexõesHá conexões surpreendentes entre o movimento do coração e certas dinâmicas solares, por exemplo. O sol é nossa grande fonte de energia e calor, está no centro do nosso sistema. O coração é o primeiro órgão formado no útero e é também, através do sangue, nossa fonte de calor e energia.

Se víssemos os movimentos de diástole e sístole em câmera lenta, identificaríamos uma forma muito conhecida de todos nós: o símbolo do infinito, ou da Leminiskata.

PrincípioO princípio básico desse movimento é que algo externo é elaborado internamente e volta ao exterior depois de interpretado.

A beleza é que também podemos enxergá-lo no cosmos, na torção e ascensão dos tubos solares.

Há uma conexão, então, entre o que acontece no universo e o que acontece em nossos órgãos. Um respeitado instituto que faz essa pesquisa é o Heart Math, onde estudos são feitos para comprovar cientificamente essa correlação.

Outro ponto fisiológico importante a ser notado, antes de investigarmos o Pensar do Coração, é que há, entre a diástole e a sístole, uma fermata – como na música – uma breve pausa, um silêncio. Durante esse silêncio, o coração, com sua inteligência, decide o que cada órgão necessita, limita aquilo que veio em excesso no sangue e envia calor às partes necessárias.

E se essa breve pausa se tornasse mais consciente para nós em nossas atividades diárias? E se “falar de coração aberto” fosse o nosso natural? Já perceberam que, quando pedimos desculpas ou algo nos toca profundamente, nossa mão direciona-se automaticamente ao nosso peito? O que é que mora no coração que nos garante essa pureza?

Inteligência é, na etimologia da palavra, a capacidade de inter liggere: “escolher entre”. Ou seja, é só com o coração que a inteligência se transforma em sabedoria. Tudo aquilo que sei e estudei (Pensar), unido ao estímulo no momento em que senti (Sentir), se torna uma escolha que é ao mesmo tempo clara e empática (Querer).

A frase de Antoine Saint-Exúpery expressa essa equação de forma precisa “On ne voit bien qu’avec le coeur. L’essentiel est invisible pour les yeux”, que quer dizer em Português: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Quando o coração é alimentado por bons sentimentos, nossa imunidade cresce, temos mais disposição; ao passo que quando estamos aflitos, tudo ao redor parece ruim.

“Os lábios dos sábios derramarão o conhecimento, mas o coração dos tolos não fará assim. Todos os dias dos aflitos são maus, mas o coração contente é um banquete contínuo.”

Provérbios 15:7

Há também uma antiga sabedoria que diz que “os relacionamentos são a yoga do futuro”, ou seja, é na relação com o outro que me percebo melhor, que sei quais são os meus medos, sentimentos, mas principalmente exercito aquilo que carrego de mais precioso: meus valores.

No dia a dia, somos tomados pelo cotidiano: a rotina em família, o cuidado com a casa, o trabalho. Essas dinâmicas podem trazer muita satisfação ou ser uma espécie de prisão. Cabe a nós buscar nas pequenas tarefas diárias o diminuto silêncio entre nossas diástoles e sístoles. Entre uma reunião e outra e durante uma conversa difícil, por exemplo.

Eisntein afirmava que “O pensamento puramente lógico não nos proporciona cognição do mundo real”. É muito útil ler Sun Tzu, Drucker, Daniel Burkhard, mas isso não nos garante a ação consciente no mundo.

O Pensar analítico nos garante o fim, com a lógica, a ciência; o que é quantitativo, o conteúdo. É possível dizer que, com nosso ego, o controlamos mais. A ideia não invalidar o pensamento crítico, – afinal esse artigo provém de uma pesquisa – mas é perceber que é por meio do pensar do coração que nos preocupamos com o processo, damos mais abertura à criatividade, à arte, e sua forma pode ficar mais viva e interessante. Enquanto sozinha posso ler e adquirir conhecimento, mediante minhas relações, consigo multiplicar os pensamentos e encontrar resultados interessantes que não se resumem a si mesmos: são um processo contínuo.

Tornar a sabedoria do coração mais consciente não é uma tarefa trivial. Muitos autores se debruçaram sobre o tema, como Steiner – que sugere uma série de exercícios chamados colaterais, práticas meditavas que fortalecem nossa ação no mundo e alimentam o chamado Coração Etérico. Essas estratégias são tema para outro artigo, no entanto. Atenho-me aqui à importância de olhar para o Sentir como a indispensável inteligência que pode sanar nossas inquietações e frustrações no mundo atual, equilibrando nossos extremos do Pensar e do Querer.

Fontes

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