Há limites para o que decidir? Afinal, o que pode e o que já foi decidido?

Orçamentos, planejamento estratégico, plano de vendas, de canais, plano de desenvolvimento de pessoas, etc., mais do que realizar a simples mudança de plano para processo, agora é o momento certo para mudar a forma de planejar e de operar a empresa. Planejar passa a ser sinônimo de tomar decisões em grupo, ou como chamamos aqui na ADIGO, processo decisório em grupo. Esse é um dos caminhos mais adaptáveis para as decisões sobre questões que nunca nos deparamos antes:

  • A empresa deve reservar parte do orçamento para pagar a “vacina” para os colaboradores? Essa é/será responsabilidade das empresas?
  • Home-office gera passivo trabalhista? E o modelo híbrido?
  • Quais as consequências emocionais do modelo híbrido?

Acredito que cada um tenha suas respostas, uns com mais consciência do que outros, mas todos têm. O fato é que o processo de tomada de decisão necessário para os tempos atuais e futuros, mudou. E acreditem, a boa notícia é que ele existe há muito tempo e hoje vale mais do que nunca.

Curtindo um dos momentos que mais gosto de desfrutar – escolher o próximo livro para ler – encontrei, como que atraído por um ímã, “Para onde nos leva a tecnologia”, de Kevin Kelly [1]. Nas palavras de Tom Peters, neste “magistral” livro, encontrei mais respostas sobre os impactos do que temos que decidir agora e nos próximos anos, do que nos milhares de vídeos e artigos que circulam diariamente pela internet. Encontrei a essência, ou talvez, um dos arquétipos que poderá nos apoiar nas decisões conscientes que terão que acontecer.

Para explorar esses possíveis caminhos de decisão, alguns conceitos são importantes como pano de fundo.

O técnio

Segundo o autor, paralelamente ao processo de criação biológica da Terra, e dos seres que a habitam – incluindo eu e você – formou-se também o técnio. Um sistema global e massivamente interconectado de “tecnologias” que gira ao nosso redor dia e noite, ininterruptamente. O técnio vai além de objetos de metal, cerâmica e plásticos. Inclui a cultura, a arte, as instituições e as criações intelectuais de todos os tipos. Inclui objetos intangíveis como software, leis e conceitos filosóficos. Inclui também os impulsos geradores de nossas invenções que encorajam a produção de ferramentas, novas tecnologias e a produção de mais conexões que aprimoram esse todo. Tudo que é criado pelos seres humanos e pelas suas criações.
Nós, seres humanos, vivemos e somos os conectores então, dos dois principais sistemas que formam o contexto da nossa existência e atuação no mundo: biológico (representando a vida de forma ampla) e o técnio.

Vetores Evolucionários

Os vetores evolucionários conferem autonomia aos sistemas vida e técnio, limitando, dentro de uma amplitude imensa de alternativas, o que é possível – e o que não é – no processo de evolução.
No caso do sistema biológico, a evolução da vida de todos os seres naturais é direcionada por três vetores evolucionários, cada um com sua essência intrínseca: estrutural (inevitável), histórico (contingente) e funcional (adaptativo).

  • O primeiro vetor é o que representa o inevitável, o que é estrutural e “inescapável”. Esse vetor é governado pelas leis básicas da física da matéria e pela auto-organização emergente da vida, indo em direção às formas predestinadas, obedecendo macropadrões.
  • O segundo vetor traz o aspecto imprevisto histórico das mudanças evolucionárias. O passado e sua influência no presente e futuro importam. Os acidentes e as circunstâncias não previstos alteram o curso da evolução de várias maneiras diferentes.
  • Por último, o vetor evolucionário funcional é o responsável pela adaptação da vida, motor implacável da otimização e inovação criativa que está sempre resolvendo problemas para que a vida continue existindo, mais conhecido como seleção natural, cego e inconsciente (as decisões adaptativas já têm o rumo “pré-determinado” nos macropadrões, restando às forças adaptativas a liberdade dos ajustes finos).

Resumindo, o amplo sistema da vida é direcionado por vetores que a tornam dependente do passado contingencial, predestinada e adaptativa. Esses vetores funcionam em conjunto e se retroalimentam para cada próximo passo da evolução da vida.

E no técnio? Como encontrar caminhos para formar bases de decisão?

No técnio, há uma fundamental diferença na essência de um dos vetores evolucionários (veja figura 1). Responsável pela adaptação do sistema abrangente técnio, o vetor funcional – atuante no sistema vida – é substituído pelo vetor intencional, aberto e consciente. Esse vetor, no técnio, responde ao livre arbítrio/livre escolha do ser humano. A partir desse vetor, cria-se um domínio composto pelas incontáveis decisões políticas e legislativas que tomamos sobre as invenções inevitáveis e pelas bilhões de decisões que tomamos quando escolhemos ou não determinada invenção (celular, exames de DNA, cremes regeneradores, carros híbridos, tipo de combustível, tipo de energia, etc.).
Podemos selecionar os detalhes de nossa educação em massa, orientando o sistema para maximizar a igualdade, ou a excelência, ou a criatividade ou a competição (isso é intencional, aberto e consciente). Cada caminho conduz a uma cultura diferente. Mas o que não podemos fazer com facilidade é alterar o sistema de educação em massa. Ele é inevitável de acordo com decisões tomadas há décadas e também, de acordo com as contingências históricas surgidas (como exemplo, nos baixos índices de alfabetismo, surgem as ações de aceleração da alfabetização com aprovações em massa, prejudicando a qualidade do conhecimento adquirido pelos alunos).

Figura 1: Os dois grandes sistemas que formam a existência do ser humano

Somos hoje então, biologicamente, resultado do que era inevitável na seleção natural, de nossa adaptação e das contingências históricas da vida. No âmbito do técnio, vivemos hoje rodeados pelo que é inevitável (energia em grande escala é por corrente alternada), das contingências históricas (Cabral chegou ao Brasil, não às Índias) e das nossas escolhas e decisões, do nosso livre arbítrio. Sobre o que é biológico, não podemos decidir, somente nos adaptar via processos naturais lentos. Já sobre o técnio, podemos e devemos, intencionalmente, de forma aberta e conscientemente.

E se esse é o caminho, duas questões importantes surgem:

  1. O que é contingente/histórico que afeta e afetará as decisões?
    A pandemia resultante da proliferação global do COVID-19 trouxe um grau de complexidade maior e deixou ainda mais clara a interação entre os sistemas VIDA e TÉCNIO. Um vírus (não cabe aqui debater se é artificial ou natural) criou um fato histórico contingente, afetando os dois sistemas! É fato! É a força deste vetor evolucionário em sua mais intensa ação… no presente. Indivíduos, grupos, organizações e a sociedade global afetados seriamente.
  2. O que é estrutural e inevitável?
    Nossas leis, a forma como nossas empresas são tributadas e competem no mercado, a forma como nosso sistema de saúde está estruturado (público e privado), nossa colonização, nossos hábitos, nosso nível de saneamento básico, nosso nível de instrução, o como lidamos com escassez, para citar alguns, são definidores de nossas decisões. Mesmo sem ter intenção, quando o álcool gel foi anunciado como necessário, tanto a população (compra excessiva) quanto as empresas produtoras do produto (aumento de preços) mostraram o inevitável. E claro, muitos exemplos positivos e contrários também emergiram em resposta (exemplos do fator intencional usado conscientemente).

As escolhas no técnio (FATOR INTENCIONAL) serão responsáveis pela nossa readaptação como seres humanos. Isso seria mais fácil se já não tivéssemos feito outras escolhas antes. Fato é que nossas decisões necessárias em meio e pós pandemia deverão levar em consideração o que é inevitável (nosso sistema de justiça é dado, por exemplo), com as contingências históricas que carregamos como humanidade e suas consequências (no caso do Brasil, o padrão de consumo americano, por exemplo).

A qualidade, consciência e transparência de nossas decisões nesse momento são o novo fio de ouro que transformarão nossa sociedade, através dos indivíduos, grupos e organizações. Hoje, também, temos a oportunidade de criar o inevitável e o histórico do futuro, simultaneamente à nossa adaptação. Que oportunidade!

O significado desse mecanismo é que, ao retroalimentar de maneira consciente os vetores evolucionários para ambos os sistemas, nossos filhos, netos e bisnetos, herdarão melhores contextos para escolhas e decisões. As decisões intencionais nos conectam com nossos descendentes através do tempo, mesmo aqueles que não chegaremos a conhecer pessoalmente.

Na prática, como começar? O que estamos decidindo agora?

  • Home-office, family-office, volta aos escritórios ou modelo híbrido?
  • Filhos na escola, home schooling, escola virtual ou modelo híbrido?
  • Sobre “voltar” para o trabalho: As autoridades decidem por mim, as empresas decidem por mim ou eu decido com apoio?
  • Até onde vai a responsabilidade da empresa junto aos seus funcionários e suas famílias?
  • As empresas multinacionais estabelecidas no Brasil respeitarão os protocolos, técnica e juridicamente impecáveis de suas matrizes, ou terão abertura para certa adaptação local? Seus executivos farão valer o aprendizado com os sentimentos e as emoções das pessoas na busca de um caminho do meio nessa decisão?
  • Iremos incluir princípios de liberdade, fraternidade e igualdade em nossos comportamentos de agora em diante, como cidadãos, profissionais e demais papeis que exercemos?
  • Aproveito o momento de expansão do home-office para mudar a sede da empresa para cidades que oferecem incentivos fiscais?
  • A empresa no qual sou líder deve ampliar ou assumir sua responsabilidade no âmbito social, ligado com seu propósito e valores? E a logística para os funcionários?
  • Eu, indivíduo, devo ampliar meus papeis e criar uma instância na qual cumpro minhas responsabilidades como cidadão de forma voluntária?
  • Invisto num planejamento estratégico para os próximos anos levando em conta as lições desse ano ou invisto em redefinir a forma como planejo estrategicamente em minha organização?

São algumas questões que provocam reflexões para a tomada de decisão no momento atual. É preciso integrar pensar, sentir e querer para tomar uma decisão que afetará os sistemas no qual nós e nossos descendentes viverão. E quando digo afetará os sistemas, refiro-me também às dimensões internas que compõem cada sistema: minha família, a empresa que trabalho ou construí, a padaria, o cabelereiro e o colega que vende trufas nos corredores da empresa para pagar seus estudos.

Como decidir nesse contexto? Como decidir maximizando as oportunidades do vetor evolucionário intencional?

Um processo decisório se faz necessário. Uma nova cultura de decidir, arquetípica e integradora, colaborativa e objetiva, que trabalhe simultaneamente com as qualidades do pensar, do sentir e do querer, vivo e com a capacidade de se retroalimentar.

Os impactos se tornam estruturais caso não tenhamos os elementos certos, o processo certo para decidir. Se teremos um “novo normal”, como lemos e ouvimos todos os dias, eu não sei. Mas, uma nova cultura de decisão, consciente e processual e que considera o que realmente importa, é mandatória. Caso esse passo não seja dado, decisões frágeis levarão à consequências destruidoras para a técnio e para a vida. Aqui deixo bem claro: o processo decisório a que me refiro e aplico, é o fio de ouro para o melhor uso possível do vetor evolucionário intencional. É através dele que acontece a integração de perspectivas e diferentes pontos de vista dos indivíduos conscientes para lidar com a complexidade ou com decisões sobre questões emergentes. É inclusivo, usa a diversidade, adaptável e, com a prática, cada organização, cada grupo ou indivíduo podem utilizá-lo no seu próprio “jeito de ser”.

Um exemplo de situação que necessita da correta aplicação do processo decisório é a escolha da integração do teletrabalho (no qual home-office é uma das formas) aos atuais modelos de trabalho em operação nas organizações. Na medida em que avançamos nos modelos de teletrabalho, aumentam significativamente os processos trabalhistas [2] contra esses modelos. É fácil olhar para a figura 1 e usar o triângulo do técnio como um check-list. Nossas leis trabalhistas, as conquistas dos trabalhadores (CLT) e nosso sistema judiciário são estruturas que geram o inevitável. É possível fazer muitas mudanças, mas não é fácil mudar a macroestrutura que determina a relação trabalhador-empregador-governo. E a contingência, o fato de o indivíduo pertencer ao grupo de risco ou não? Como isso afeta a decisão de um juiz? Atuar nos modelos emergentes, de forma aberta e inclusiva, é parte da formação de imagem que dá início à jornada em busca de respostas úteis, verdadeiras, objetivas e transformadoras para o futuro que pede nosso melhor.

E finalmente, quando tudo parece confuso, o caminho do processo decisório traz confiança às decisões que serão tomadas.

Conclusão

Nós, seres humanos, somos os únicos conectores conscientes dos mais relevantes sistemas existentes: a vida e o técnio.

Ambos os sistemas são governados por vetores evolucionários que definem as alternativas de caminho de evolução.

O sistema técnio apresenta um vetor evolucionário que permite aos indivíduos, grupos, organizações e sociedade, tomarem decisões sobre as condições impostas pelos demais vetores. Essas decisões são conscientes.
Vivemos uma pandemia que afeta os dois sistemas e coloca luzes sobre a capacidade do ser humano tomar decisões sob as forças dos vetores evolucionários. Esse contexto pede a emergência de uma cultura de decisão baseada em processo: o processo decisório em grupo.

O caminho para as melhores decisões passa pela consciência dos mecanismos nos quais as decisões são influenciadas e por ter o apoio de pessoas capazes de aplicar o processo decisório nas questões relevantes para o contexto que emerge.

No contexto atual, decidir sem levar em conta o que tratamos nesse artigo é, no mínimo, semelhante a não decidir e deixar o destino de nossos descendentes nas mãos do que é inevitável e histórico. É reduzir as opções de futuro.

Apoiar indivíduos, grupos, organizações e a sociedade nas decisões para equilíbrar seus processos de crescimento e desenvolvimento em prol da perenidade, da vida, é o que me dá a certeza da missão do ser humano no momento atual.

Marcello Cavallieri Gomes
Novembro 2020

Referências:

[1] Para onde nos leva a tecnologia – Kelly, Kevin; Editora Bookman; 1ª edição – https://www.amazon.com.br/Para-Onde-nos-Leva-Tecnologia/dp/8577809706/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&dchild=1&keywords=Para+onde+nos+leva+a+tecnologia&qid=1604787638&sr=8-1
[2] https://www.infomoney.com.br/carreira/processos-trabalhistas-sobre-home-office-sobem-270-parlamentares-reagem/

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