Eu não sei!

Nessa crise que estamos vivendo, a maior de nossa geração, estou cansado de gurus que dizem saber o que vai acontecer.

Que dizem que depois dessa experiência de home office e trabalho remoto, as interações digitais serão o nosso normal; que as reuniões remotas serão mais objetivas e práticas, que praticamente quase tudo que se fazia presencialmente será feito remotamente, e que isso trará um ganho de qualidade de vida, aproximando as pessoas da suas famílias, de seus pets, dando lhes mais liberdade e saúde.

Que escritórios não serão mais necessários.

Que haverá uma redução drástica das assistentes, viagens de negócios, equipes de visitação, infraestrutura e que, esse dinheiro poderá ser utilizado para melhores salários, desenvolver pessoas para a inovação, etc.

Por outro lado, há os que dizem que home office de vez em quando é bom, mas em larga escala é estressante.

As reuniões são objetivas porque são superficiais, as opiniões são atropeladas.

Que se era difícil não ser autoritário e fazer com que as pessoas participassem presencialmente, remotamente é impossível. Que trabalhar em casa e ficar com os filhos, pets e afazeres domésticos é exaustivo.

Que as relações remotas são frias, distantes e que isso destruirá a cultura das empresas. Que a qualidade de uma reunião remota é 30% de uma presencial. Que estaremos por muito tempo consertando as decisões erradas que tomamos virtualmente e que, depois dessa quarentena as pessoas estarão de bode de fazer coisas virtuais e usarão só quando estritamente necessário.

Eu não sei!

Alguns dizem que esse momento será a hora de reavaliarmos o nosso papel no mundo e o que as pessoas aprenderam nesta situação; o que é interdependência e o que não esquecerão.

Que é importante desacelerar, sermos mais altruístas e que o mundo será um lugar melhor.

Que o mindset mudará radicalmente e entraremos em um novo estágio de consciência.

Que a humanidade está passando por um portal e que aproveitaremos a oportunidade para encontrar um caminho que permita resgatar a natureza, distribuir melhor a renda e construir uma sociedade mais justa.

Outros, inspirados pela experiência de outras crises que a humanidade já enfrentou, como a primeira guerra, a guerra que era para acabar com todas as guerras e gerou uma guerra ainda mais devastadora: A Segunda Guerra.

Guerra essa que libertaria o mundo, mas jogou metade da humanidade embaixo de ditaduras cruéis. A peste negra que os doutos da igreja esperavam aproximar a humanidade de Deus é de sua Santa Madre Igreja, mas que provocou uma onda de luxuria e ateísmo.

Ou também pela Revolução Francesa, que queria acabar com os reis e entregou a Europa nas mãos da Santa Aliança.

Que após essa crise haverá uma vontade imensa de recuperar os lucros e perdas financeiras. Que as nações assustadas vão se fechar ao globalismo, fechando seus mercados e que, a concentração de renda e devastação ambiental se ampliarão.

Eu não sei!

Gurus dizem que nas organizações, líderes forjados nessa crise serão mais objetivos, práticos, rápidos, lidando com as incertezas dos negócios de maneira pragmática e gerindo a partir dos resultados.

Outros dizem que nessa crise, vamos descobrir que os líderes e organizações que se destacarão, são os que mantiveram um olhar humano para as pessoas.

Que elas se lembrarão do que foi o momento mais difícil de sua vida profissional, quais foram os líderes que realmente se importaram e que depois, quando essa crise passar, teremos aprendido a olhar nos olhos das pessoas e a ouvir seus sentimentos, mostrando nossas vulnerabilidades.

Eu não sei! O que eu sei:

Eu sei que a humanidade, aos trancos e barrancos, nos últimos séculos vem numa caminhada evidente de evolução que talvez não seja perceptível em períodos curtos de 10, 20, 50 anos, mas essa é a verdade.

E todo esse discurso que temos feito sobre propósitos, valores e altruísmo é em uma crise que ele se mostra verdadeiro ou palavras vazias.

Eu sei que depois desse momento agudo de crise, teremos tempos difíceis.

Eu sei que equivocados ou não, tentaremos fazer o nosso melhor.

E sei que quando lembrarmos desses dias, vamos sentir orgulho ou vergonha do que fizemos.

Eu sei que neste momento precisamos ouvir os especialistas, mas as decisões são de nossa responsabilidade.

Eu sei que nessas horas é melhor seguir o conselho do Marquês de Pombal, quando após o terremoto de Lisboa que devastou a cidade, os incêndios e a peste tomaram as ruas, o rei desesperado pergunta: Pombal o que vamos fazer?

E o Marquês respondeu: Majestade enterraremos os mortos, cuidaremos dos vivos e fecharemos os portos.

Nós enterraremos nossos mortos, cuidaremos dos vivos, protegendo nossos grupos vulneráveis, nossas empresas e nos prepararemos para quando os portos se abrirem.

Tem mais uma coisa que eu sei: em breve vamos descobrir as respostas do que não sabemos, e as encontraremos juntos.

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