Reflexões para indivíduos e organizações

“Símbolo da dinâmica da vida… o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes e as realidades configuradas, uma situação de ambivalência, que é a da incerteza, que pode concluir bem ou mal.” Jean Chevalier, Dicionário dos Símbolos

Você tem se sentido cada vez mais açodado pela velocidade das mudanças e pelo excesso de demandas e informação? Como você tem lidado com a instabilidade e a incerteza para fazer planos na vida pessoal e profissional? Você tem a percepção de que o mundo se tornou mais complexo, mesmo com a promessa tecnológica de facilitar nossas vidas? Bem-vindo ao “mundo VUCA”!

Para quem ainda não conhece, o acrônimo em inglês apresenta quatro características do mundo em que vivemos: volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Extraído do vocabulário militar para descrever as condições de um campo de batalha extremo, o acrônimo VUCA passou a ser adotado por pensadores contemporâneos por ser apropriado para ilustrar a nossa realidade. Ou seja, representa bem o “zeitgeist”, o espírito da época.

O que até pouco tempo podia ser visto, por alguns, como um recurso teórico distante da vida real, a pandemia do novo coronavírus trouxe o VUCA para nossa experiência individual e coletiva: a sensação de incerteza frente ao futuro; a complexidade de fatores interligados (como economia, saúde pública, política, etc); a volatilidade de mercados e ativos junto à sensação de fragilidade dos mecanismos para enfrentar a crise; as ambiguidades que temos que aprender a contemplar (por exemplo, quando distância social passa a ser demonstração de afeto). Em um mundo completamente conectado, o alcance e velocidade de propagação do vírus, bem como seus efeitos sistêmicos, são tremendos!

Mas o “mundo VUCA” é um dado do contexto. A questão é como nós, indivíduos e organizações, lidamos com isso. O coronavírus representa uma oportunidade de aprendizagem, ao acelerar processos em curso, desvelar contradições e ressaltar desafios de amplo alcance. Para aprofundar essa reflexão, é possível recorrer a uma metáfora que explicita a nossa relação com as forças da natureza: viver no “mundo VUCA” é como navegar em um mar turbulento, com ondas se chocando, correnteza, muito vento e baixa visibilidade.

Uma atitude possível é simplesmente ser carregado ao sabor da maré, ao estilo náufrago, fazendo refrão ao coro “deixa a vida me levar”. Esta é uma alternativa ao desespero na navegação. Em alguns momentos pode ser a opção mais segura, ao menos temporariamente. Porém, se existe algum destino em mente ou mesmo desejo de se fazer uma boa viagem, torna-se necessário adotar uma posição mais proativa e consciente nesta jornada. Para tanto, algumas posturas e atitudes podem nos auxiliar frente ao desafio contemporâneo de fazer a “gestão do fluxo”.

Posturas frente ao mundo VUCA

Como se adaptar à volatilidade?

Num cenário volátil e instável, passa a ser necessário exercitar a capacidade de adaptação. Para o “mundo líquido” descrito pelo sociólogo Zigmunt Bauman, o conselho do mestre Bruce Lee parece bem apropriado: “be water, my friend”. Além da resiliência para absorver impactos externos, é necessário valorizar a aptidão para aprender e evoluir, tornando a experiência proveniente da relação com o meio em conhecimento prático e relevante. Em que medida é possível ser “antifrágil” e desenvolver a competência de se beneficiar e evoluir em tempos de crise? O que estamos aprendendo com a pandemia, seja no nível existencial, organizacional ou social?

Durante esta viagem, os recursos de navegação – o tipo de embarcação, as velas disponíveis, a redundância de motores, bússola e sensores – são importantes. Mas não são suficientes: o piloto automático é fatal! Cada marinheiro, conectado com os sinais do ambiente, é responsável por alertar sobre mudanças e movimentos. Todos são essenciais. Cada um a partir de sua perspectiva particular.

Em momentos críticos, processos de colaboração catalisam a criação de soluções inovadoras para os problemas emergentes. A gestão hierárquica, autoritária e inflexível dá lugar a uma abordagem mais horizontal e participativa. E o “capitão”, o líder, assume papel de maestro, respeitado pela capacidade de inspirar e facilitar a gestão integrada e o desenvolvimento do time, em favor de objetivos comuns. Ironicamente, aqui no Brasil, em meio a esta crise aguda, sentimos na pele o vácuo de liderança e desalinhamento de práticas e discursos nas diversas esferas de poder.

Como lidar com a incerteza?

Neste mar de insegurança, é valioso buscar referências, indicadores e parâmetros que possam situar uma dada posição e proporcionar rumo, direção. Diferente de um ambiente previsível, nada garante que o planejado se comprovará viável, ou indo além, é certo que será preciso um ajuste constante da rota. Além do mapa, estático, dados dinâmicos e interativos, em tempo real, são fundamentais para a navegação.

Imagine o “status” atual dos processos de planejamento estratégico realizados no final do ano passado e no início deste ano, projetando orçamento e ações para 2020 a partir de cenários que simplesmente evaporaram. Em que medida devemos ser capazes de conceber planos que possam ser atualizados e adaptados às mudanças repentinas?

Lidar com o imponderável implica também em adquirir a leveza para interagir com o acaso e valorizar mais as “perguntas poderosas” do que as “respostas de manual”. Quais são as condições de navegação? Para onde bate o vento e quais são as correntezas que estão agindo? Há exemplos de histórias e trajetórias que possam inspirar a jornada? Como nos situamos em relação a outros que viajam na mesma direção?

Como considerar a complexidade?

Contudo, é necessário desenvolver a humildade para perceber a complexidade do ambiente e nossos limites para compreendê-lo. Complexidade que se expressa na quantidade de variáveis envolvidas na leitura do cenário, o que enfraquece uma perspectiva linear, de causa-efeito, em favor de uma perspectiva sistêmica e transdisciplinar. Em momentos críticos, passa a ser importante adotar uma abordagem participativa que busque construir diretrizes e princípios globais, sensíveis às realidades e necessidades locais, promovendo autonomia e diálogo entre públicos e áreas de conhecimento.

É o declínio da ilusão reducionista do racionalismo, para aceitar a realidade como ela é. O pensamento lógico abre espaço para a intuição, que permite acessar outros níveis de conhecimento. Frente a um ecossistema complexo, a competência analítica pode se somar à visão holística, que considera a força do todo a partir da interdependência e da singularidade das partes.

Uma rota possível é buscar ler a complexidade com simplicidade, sem ser simplista. Como coloca John Maeda, em suas “Leis da Simplicidade”, “é preciso subtrair o óbvio e valorizar o significado e a relevância”. Precisamos conseguir olhar para o processo, mesmo que caótico, e perceber a essência da realidade. Criar ferramentas para visualizar as conexões e estabelecer pontes integradoras, que propiciem aprendizagem coletiva e agilidade na tomada de decisão.

Como integrar a ambiguidade?

A experiência da crise atual tem exigido de todos a capacidade de lidar com paradoxos. Por exemplo, na medida em que democracias liberais passam a impor a restrição de circulação e o monitoramento da população, ou de que é preciso priorizar a saúde e, ao mesmo tempo, agir frente aos impactos sociais e econômicos.

Como se portar frente à ambiguidade? Por mais curioso que possa parecer, é aí que a questão da identidade passa a ser fundamental. Calmarias e tempestades à espreita, se sucedendo sem nexo aparente, requerem alguma clareza de direção. Por um lado, a identidade se revela na trajetória já realizada, nos desafios já superados e no conhecimento acumulado. Por outro, a clareza sobre a própria identidade representa um “norte” de navegação, que permite iluminar competências a nutrir e potenciais a realizar, proporcionando um guia.

A relevância do “norte” mais amplo não impede a descoberta de novos rumos e possivelmente novos destinos, que poderão vir à tona para se adaptar às condições climáticas. Mas cabe uma ponderação: dada uma certa condição, vale a pena ajustar a vela para ir contra o vento (o que implica em extremo desconforto e caminho em zigue-zague, muito mais demorado) mantendo o destino inicialmente almejado, ou seria melhor mudar a rota para uma trajetória que coadune de alguma maneira com a identidade, mesmo que implique em “tradeoffs” significativos?

Na tomada de decisão, quais são os valores que ajudam a escolher a melhor alternativa? Qual é o propósito que mobiliza forças e inspira a ação? Ampliar a consciência sobre a identidade significa, inclusive, reconhecer e integrar as próprias ambiguidades. Aparentes contradições que, em equilíbrio dinâmico, representam a força motriz da evolução. Até porque a coesão de identidade não significa reduzir a diversidade interna.

Em busca do “flow”

O “mundo VUCA” é a superfície deste mar turbulento. O navegante atento consegue identificar as correntezas que operam abaixo da superfície e os ventos predominantes. Percebe as ondas que declinam e identifica as forças emergentes que impulsionam novos paradigmas. A pandemia pode ser vista como um tsunami que acarretará retrocessos e “naufrágios” ou como uma oportunidade de aprendizagem e evolução. Nas linhas acima mergulhamos brevemente nessa dinâmica, como reflexo da transição de época a que estamos todos submetidos.

Ao analisar esse processo de mudança, Fritjof Capra discorre sobre a passagem do “paradigma Auto-afirmativo” para o “paradigma Integrativo”. Neste contexto, evidencia-se a tensão entre valores antagônicos (expansão vs. conservação, competição vs. cooperação, dominação vs. parceria, quantidade vs. qualidade, comando e controle vs. liderança e negociação, egoísmo vs. altruísmo, etc) e fica latente as diferenças entre visões de mundo e formas de se relacionar com a natureza:

  • Por um lado há uma visão “antropocêntrica” e mecanicista, que vê a natureza como recurso a ser explorado, baseada no pensamento analítico-racional. Uma perspectiva própria da “sociedade industrial”, que gerou progresso acelerado, mas já demonstrou suas limitações e fragilidades.
  • Por outro lado, emerge uma mentalidade “biocêntrica”, holística, que reconhece o valor e os limites do meio ambiente para o desenvolvimento humano. Aliada ao impulso da “sociedade do conhecimento”, esta perspectiva abarca a conjuntura de fluxos incessantes e transformações aceleradas, e promove o florescimento de sistemas adaptativos complexos, abertos a evoluir a partir da relação com seu ecossistema.

Diferente do que se supõe, “ir de vento em popa” remete a uma condição que não é ideal para a navegação: com o vento vindo de popa com bastante intensidade, navega-se a uma boa velocidade mas o risco de dar um “jibe” acidental – a vela virar de um lado para o outro do barco em alta velocidade e possivelmente quebrar o mastro – é sempre presente. Esta reflexão é interessante para pensarmos que o crescimento a um ritmo frenético também seja algo perigoso, especialmente em ambientes de alta incerteza. Encontrar a cadência para progredir é fundamental. Nesse sentido, vale ponderar sobre modelos de crescimento exponencial e resultados de curto prazo (seja no caso de organizações ou economias como um todo), e acreditar que as lições e os impactos da atual crise possam ser alavancas capazes de ampliar os caminhos efetivos para o desenvolvimento sustentável.

Pelo olhar amplo da Antroposofia, o processo milenar de passagem da “Corrente da Individuação” para a “Corrente da Integração” traz luz para o estágio de amadurecimento da humanidade, ao reconhecer a importância do desenvolvimento do “eu”, através da autoconsciência e da interação interdependente com seu ambiente. Contudo, é válido apontar o caráter paradoxal desta travessia, na medida em que sofremos a influência das duas correntes. A onda emergente carrega aspectos da onda decadente, não como antítese, mas como síntese que a supera. Não se trata de escolher um lado ou outro, mas integrá-los em um novo grau de consciência.

O comprometimento com a jornada de desenvolvimento está diretamente conectado com a disposição para buscar nosso propósito e realizá-lo. Perseguir, assim, o estado de “flow”: a sensação de foco, serenidade e motivação intrínseca, a partir da conexão de nossas habilidades e talentos com as necessidades e desafios do mundo. E em meio a tudo isso, precisamos cada vez mais de líderes capazes de impulsionar indivíduos, organizações e toda a sociedade em seus caminhos de evolução.

A disposição para algumas destas posturas e atitudes certamente não esgota nossa carência por meios para navegar em mares nunca antes navegados. Mas podem tornar a viagem mais fluida e prazerosa. E que a jornada de descobertas seja, em si, o destino. Boa viagem!

Guilherme Callegari

Referências:

  • Bauman, Z. – “Vida Líquida”, Zahar2007.
  • Capra, F. – “A Teia da Vida”, Cultrix, 1997.
  • Csikszentmihalyi, M. – “Flow: the Psychology of optimal experience”, Harper Perennial 1990.
  • Maeda, J. – “As Leis da Simplicidade”, Novo Conceito, 2006.
  • Moggi, J. e Burkhard, D. “O Espírito Transformador”, Editora Antroposófica, 2000.
  • Nonaka, I. ; Toyama, R. e Hirata, T. – “Managing Flow”, Bookman 2011.
  • Taleb, N. – “Antifrágil”, Best Business 2012.
  • Entrevista com Bruce Lee – https://www.youtube.com/watch?v=vBT36Td-GuY
  • Conversa com o amigo, doutor em biologia e capitão Ricardo Bertoncello.

 

 

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