Lenio Alvarenga
Executivo na Indústria Farmacêutica.
Em constante construção…
O momento mais difícil ao tentar descrever uma experiência é como elaborar o início do texto. Sei que não conseguirei imprimir a curiosidade deflagrada por Dickens ao iniciar seu Conto de Duas Cidades: “Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos… um período de luz e um período de trevas…”. Momentos de grandes transformações pessoais e profissionais sempre trazem esta ambiguidade, mencionada logo ao início do livro, como parte do cenário. Mas, apesar do efeito transformador do processo ter seu paralelo ao que a Revolução Francesa trouxe ao mundo (e às duas cidades do conto), a linha tênue entre a aplicação proposital da hipérbole e o disparate da descomedida comparação, fez-me refutar o uso simples da citação, que poderia levar a uma comparação direta do escopo de impacto de ambas as transformações. Fico então com a opção mais simples para o começo deste texto: tentarei resumir aqui como um momento de desafio pessoal e profissional foi auxiliado por um processo, corporativo e estruturado, de crescimento, dos que vivenciavam o desafio inerente à liderança de pessoas.

Um dos meus desafios na carreira executiva foi não ter tido educação acadêmica formal quanto aos processos envolvidos na gestão de pessoas. Mas dado o desafio, acredito que todos que o enfrentam seguem em uma jornada empírica baseada não só no aprendizado a cada etapa, mas também na busca ativa de modelos, exemplos e reflexões que auxiliem na missão de corresponder ao que esperam aqueles que te escolheram para liderar, como também ao que merecem aqueles que estão sob sua liderança. Felizmente, sinto que me beneficiei de um período no qual as corporações já tinham percebido que novos tempos exigem adaptações frequentes e que, entre investir em projetos de novos produtos/serviços e investir no desenvolvimento dos gestores de pessoas, não há oposição e sim congruência.
Corroborando o princípio descrito por Maslow (Psychology of Science, 1966) que nos lembra que sempre buscaremos lidar com o mundo usando as ferramentas que temos disponíveis (se for só um martelo, veremos tudo como pregos), busco sempre analogias biológicas para interpretar e facilitar o entendimento dos desafios. Assim, entendo o processo estruturado de desenvolvimento de liderança como um processo enzimático. As enzimas que temos em nosso corpo são vitais às nossas funções, pois agem em outras moléculas, facilitando o nosso metabolismo ao catalisarem processos que, sem elas, seriam lentos e pouco espontâneos. Sem elas, alguns processos até ocorreriam, mas seriam extremamente lentos, sem regularidade e/ou especificidade, e prejudicariam o desempenho de todo o sistema. Na analogia fica mais transparente e perceptível também o benefício do processo organizacional envolvendo toda a liderança, maximizando assim o impacto na corporação (sistema).
O momento em que participei do programa de desenvolvimento supracitado foi bem peculiar. Eu havia sido contratado recentemente pela empresa para liderar um grupo de gestores. Acumulavam-se assim o desafio de conhecer a cultura organizacional e o de conhecer a equipe e suas necessidades. O processo, com atividades em grupo além das sessões individuais, foi fundamental para conseguir lidar com ambos os desafios.
A realização de workshops para discutirmos conceitos e compartilharmos experiências, além de nos conhecermos mais nos nossos desafios de liderança, foi fundamental para atingir os objetivos do programa. Em particular, uma seção foi muito relevante para o meu desafio pessoal: a discussão sobre os modelos/padrões de vínculos que os colaboradores podem apresentar em relação à empresa. Apesar de o modelo discutido ser agregador e não disruptivo frente aos nossos conceitos prévios, as interações e os exemplos abordados por todos, facilitou o processo de assimilação e aplicação do conteúdo e trouxe grandes transformações e contribuições ao clima e ao crescimento da equipe de gestores. Sabermos diferenciar os vínculos ligados apenas às necessidades básicas do colaborador (salário, seguro saúde etc.), daqueles que já desenvolvem um vínculo baseado em relacionamentos e também identificar os que se identificam com a empresa (e o que ela representa), foi de extremo valor para lidar com a minha equipe. Além de compartilhar os exemplos e interpretações, o processo horizontal de treinamento/desenvolvimento facilitou discussões com pares e gestores sobre como abordar situações específicas. O processo de mapeamento de vínculos trouxe várias “dicas” sobre o que a minha equipe precisava. Encontrei várias respostas ao analisar as causas que levavam colaboradores a terem vínculos tão desiguais dentro de um ambiente a princípio semelhante, e muitas vezes compartilhando o mesmo gestor. A simultaneidade do processo fez com que o ambiente se tornasse propício e facilitasse as mudanças necessárias, as conversas frequentes e a transparência nas relações. Dentro do momento de transformação cultural, o ambiente se tornou propício e frutífero para novas ferramentas e modelos de relacionamentos e gestão.
Mas ainda que os caminhos organizacionais sejam facilitados pelo processo coletivo, dentro do meu desafio com o meu time (e suas ansiedades e necessidades), havia também um desafio quanto à minha liderança. Uma analogia válida aqui é o conceito de viscosidade. O caminho exigido em uma mudança cultural e o ambiente externo oferecido pela corporação são similares para vários líderes. Entretanto, o quanto conseguimos “fluir” no processo, tem relação intrínseca ao que nos compõe em termos de maturidade e eficiência de nossa liderança. A viscosidade de um líquido pode ser definida como a resistência a mudar de forma frente a pressões. É esta característica que define o quanto de stress é gerado quando um líquido trafega por tubulações. Portanto, para conseguir passar com menos stress pelo que era requerido, era necessário que eu também mudasse esta característica intrínseca e pessoal. Neste processo, o coaching individual pôde catalisar a transformação e diminuir minha “viscosidade” no processo.
Esta foi a minha primeira experiência como coachee e, durante as sessões, percebi um derretimento gradual de minhas preconcepções de um processo engessado em conceitos e talvez não aplicável ao meu contexto peculiar. A definição dos objetivos e da questão principal foi importante para que as interações tivessem foco e conseguíssemos endereçar os pontos pertinentes em tempo hábil. Dentre as sessões seguintes, uma se sobressaiu trazendo com clareza e veemência aspectos intrínsecos que influenciavam de maneira contundente os meus desafios como líder: a revisita a todos os meus setênios de vida, através de imagens que os definiam na minha perspectiva atual sobre eles. Ao discutir cada imagem selecionada, com a intervenção do coach para que outros ângulos (além da minha óptica) não passassem despercebidos, pude perceber comportamentos, princípios e valores com nuances e contrastes que não havia apreciado até então. Refletir sobre este aprendizado contribuiu na minha busca em diminuir minha “viscosidade” e assim chegar ao ponto em que queria, causando menos stress no caminho e correspondendo ao que se esperava (por todos) da minha liderança.
Já ouvi uma discussão sobre priorizar a formação de bons líderes ou a busca por aqueles que já demonstraram o ser. Sem a pretensão de trazer a resposta, entendo que os conceitos e os adjetivos usados para qualificar um líder podem não representar todo o seu potencial. Ainda, para atingir este potencial, o espontâneo e o empírico podem ser suficientes, mas o caminho e a caminhada podem, sem dúvida, ser facilitados.
Dentro da matemática desafiadora da partilha de nosso tempo entre todas as nossas funções sociais (líder, cônjuge etc) e os objetivos que queremos alcançar, processos que catalisam e promovem celeridade são sempre bem vindos, já que aqueles com os quais nos relacionamos também se beneficiam nesta equação e em suas buscas individuais. Como reflexão final, importante mencionar a perspectiva de Sêneca, preceptor e conselheiro do jovem Nero, sobre o tempo. Em suas cartas a seu amigo Lucilio, registrou uma reflexão que sempre será atual e que ressalta a necessidade de sermos diligentes com as necessidades nossas e daqueles que lideramos: “Se tomares em suas mãos o dia de hoje, conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento, a vida vai passando”.
 

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