“…você pode levar um cavalo á beira do rio.
mas você é incapaz de fazê-lo beber água”
 (ditado caipira)

Por Jair Moggi

Falamos para influenciar alguém. E é tão simples formar frases que nem percebemos direito o que estamos fazendo. Entretanto há uma coordenação sofisticada e mais ou menos consciente de músculos, regras gramaticais, vocabulário, ansiedade, respiração, ambiente e tradições culturais envolvidos. Essas coisas são tão unidas entre si que mal dá para separar quando queremos pensar em um aspecto isolado desse processo. Essa complexidade é uma riqueza infinita que nos permite expor, negociar e orientar necessidades e desejos, através da fala. É nesse contexto externo do processo de Coaching que o Coach deve sempre se esmerar para fazer da sua atuação pessoal e profissional uma arte afinada com aquilo que mais revela o seu interior, a sua fala.

Mas isso não é suficiente, se o Coach quiser de fato fazer diferença na vida pessoal e profissional dos seus clientes, pois são nos aspectos internos mais sutis que se revela e amplia a complexidade que envolve a fala humana, e não no simples ato  externo de falar. Rudolf Steiner[1], afirma que em toda conversa, sempre existirá a atuação das forças anímicas do Pensar, Sentir e Querer atuando de forma simultânea e recíproca entre quem fala e quem ouve.  Ele também alerta que nos tempos atuais, aquilo que pensamos não interessa a ninguém e o que queremos irrita o outro, a não ser que o outro tenha ou seja despertado para um interesse interior genuíno para o que o outro quer conversar. É claro que aqui não se trata de uma conversa corriqueira entre as pessoas no dia-a-dia. É essa essência envolvida na relação coach-cliente que queremos explorar neste artigo feito especialmente para o programa de formação de Coaches com base antropósofica da ADIGO Desenvolvimento.

O falar, o ouvir e outros diálogos presentes no processo de coaching…

Além dessa complexidade ampliada por Steiner, sabemos também que quando o Coach e o Cliente estão frente a frente, temos entre eles não só dois, mas quatro diálogos! Temos o diálogo 1 entre o coach e o cliente, o diálogo 2 entre o cliente e o coach, o diálogo 3 que é o diálogo interno que o cliente tem consigo mesmo e o diálogo 4 que é o diálogo interno do próprio coach.

Podemos ver também que no diálogo entre o coach e o cliente   está envolvido também um outro processo sutil que abrange o ato da fala e a atitude interna da escuta   entre coach e cliente. Por exemplo, quando o coach faz uma pergunta ao cliente, simultaneamente o cliente já elabora no seu interior uma possível resposta ao que foi perguntado. Como essa atitude é inconsciente, constata-se que o cliente pode não ter ouvido a pergunta do coach em todos os seus significados. A resposta á pergunta que é a expressão do diálogo interno do cliente pode ser superficial ou no mínimo inconsciente.  Na mesma medida podemos dizer que ocorre o mesmo com o Coach imaturo ou não preparado para essas sutilezas que envolvem a comunicação humana.

A consciência dos fenômenos descritos até agora, presentes numa simples conversa, nos dão a complexidade e as sutilezas envolvidas no que ocorre na conversa entre duas ou mais pessoas.

As imposições mútuas dos Eus envolvidos numa conversa

Segundo Rudolf Steiner, a fala de uma pessoa é a imposição de um Eu que se impõe a outro Eu, e a tendência do Eu que recebeu a imposição é reagir com o seu Querer, que ainda é inconsciente no atual estágio da evolução humana.

No falar, nossa consciência está desperta apenas para o conteúdo do que um Eu vai dizer (Pensar) e não no Querer que move a nossa língua e boca.

O desafio do coach profissional é trazer o que chamamos de “Querer Consciente para si e para o cliente para potencializar o diálogo entre o Pensar do coach (consciente) e o seu   querer (semiconsciente), para o Querer adormecido (inconsciente) do cliente.

Para poder escutar genuinamente o outro é necessário que o meu Querer “adormeça“ para permitir   que o conteúdo do que está sendo dito pelo outro possa ressoar em mim em toda sua plenitude. Assim o ouvir se dá exclusivamente na esfera do sentir. No contexto do trabalho de coaching, cabe ao coach fazer brotar (acordar), na alma do cliente o conteúdo do sentir do cliente para o que está sendo dito.

Quando a partir do meu Querer semidesperto eu encontro o Querer- adormecido do outro através do sentir, o sentido do que eu estou dizendo estará mais próximo do sentido próprio que o outro atribui, versus aquilo  que eu realmente quero dizer (impor).  Pois é só daí que pode nascer o impulso ou a vontade genuína do Querer do cliente.

Em essência comunicação, que literalmente significa tornar comum, é fazer com que uma intenção mútua se torne comum. Essa é a alquimia e o desafio da comunicação humana!

A alquimia da comunicação humana

Toda comunicação se vale de símbolos e analogias. O meu Querer e o Querer do meu interlocutor reagem ao nossos símbolos e analogias pessoais. A comunicação clara surge quando eu entendo as conexões com base nos símbolos e analogias do meu interlocutor e vice-versa. Daí nasce também uma base de entendimento e de mobilização do Querer mútuo.

A arte da comunicação repousa não só na transmissão acurada   da informação, mas também na criatividade evidente presente na formação e expressão de analogias e símbolos como os encontrados na arte poética, por exemplo.

Como fica o Sentir na polaridade entre Pensar e Querer?

Se é verdade que, segundo Rudolf Steiner, o nosso querer não interessa a ninguém e que o nosso pensar irrita o outro, então parece que é do sentir que depende o diálogo com propósito que é o que se busca numa conversa entre coach e cliente.

Segundo Steiner, num nível sútil o falar emula ou imprime no corpo etérico e no corpo astral do ouvinte vivencias que tem origem na forma como o nosso sentir permeia o que pensamos e queremos e o que é falado ressoa no cliente também nessas dimensões.

As perguntas que surgem agora são: Como eu posso falar para o sentir do outro? Como falar de coração para coração? A partir dessas constatações suprassensíveis de Rudolf Steiner?

Por certo existem inúmeras técnicas e receitas pasteurizadas (pensar) disponíveis para influenciarmos o outro através de uma fala planejada. Por certo também é, que o interlocutor percebe quando uma fala vem do coração (sentir), ou vem de um outro lugar da pessoa que lhe fala.

Uma das descobertas da Antroposofia é que o nosso sentir está sempre sujeito às forças da simpatia e da antipatia que caracteriza o sentir humano. Essa polaridade   se faz valer mais ou menos inconsciente quando “atacamos” o outro com a nossa fala. Simpatia e antipatia em realidade nada tem a ver com o pensar nem com o querer, elas atuam na realidade com aquilo que tem a ver com o sentir tanto de quem fala como de quem ouve. Assim, o coach não tem controle sobre o sentir do cliente.

O que o coach pode fazer é se conscientizar antecipadamente dos aspectos simpáticos e antipáticos da conversa que ele terá com o cliente antes, na preparação da conversa que ele vai ter. Sim! Para cada cliente devemos fazer uma preparação das seções e das conversas antecipadamente! E isso tem consequências na percepção que o cliente vai ter   do que será trabalhado na seção de coaching. A boa notícia é que isso pode ser treinado![1] Steiner, ao preparar professores para o que viria a ser a Pedagogia Waldorf, afirma que o professor ao preparar o conteúdo de uma aula com profundidade, no nível do pensar, ele inconscientemente está liberando forças para que o aluno perceba no nível do sentir, e não na polaridade simpatia-antipatia o que está sendo ensinado.

Nesse sentido a qualidade da fala do Coach, do consultor, do mentor ou do professor, depende dos seus sentimentos prévios em relação ao Cliente e aos temas que serão trazidos na conversa.

A fala lírica

Rudolf Steiner em um curso especifico sobre a arte da fala, classifica as falas em três modalidades: a fala lírica que é própria para a vida espiritual, a fala dramática para as relações jurídicas e a fala épica para a vida econômica. No nosso contexto vamos tecer algumas considerações sobre o que ele diz da fala lírica que é a mais apropriada para o processo do Coaching.

A maneira lírica de falar pressupõe uma preparação onde se deve tentar de forma persistente, primeiro trazer à consciência o nosso sentir em relação ao que está sendo pensado e depois como isso poderia ressoar no referencial do cliente, tentando conectar o conteúdo com o seu mundo dos sentimentos.

Falar de maneira lírica não é recorrer a cantos, declamações, impostação de voz, citações de frases poderosas, ou coisas do gênero, mas sim falar com um “entusiasmo interior silencioso”, de tal modo que se demonstre através da fala de conteúdos que venha de dentro de si mesmo. O cuidado é que este entusiasmo silencioso não deve ser um entusiasmo falso, místico, sentimental, meloso ou pasteurizado. Steiner recomenda que não devemos preparar palavra por palavra do que deve ser dito. A preparação consciente permite criar condições e confiança de que a fala encontre seu caminho de forma fluida pelos nossos pensamentos e sentimentos interiores. Essa atitude permite inclusive reformular o que queremos dizer de improviso.

Quanto mais lógico o argumento, mais o cliente se dispersa numa conversa (fenômeno da irritação visto no início deste artigo). Então devemos nos esmerar a usar com equilíbrio um modo artístico de falar, com apoio de metáforas e a analogias pertinentes aos objetivos da conversa.  As repetições com outras palavras do que foi dito, faz o cliente não se fixar em um só ponto e o faz escutar o que há entre as frases, isso dá uma sensação de alívio e facilita a sua compreensão. 

A lógica é para pensar e não para falar

O uso de perguntas, além de mobilizar internamente o cliente, cria um momento para a respiração no diálogo. A respiração que se mantem continua durante uma conversa ao incluir uma pergunta, interfere na inspiração e faz com que o cliente escute as frases subsequentes mais atentamente.  A pergunta vai mais profundamente dentro da alma do que as declarações lógicas que adormecem o ouvinte após algum tempo.

É preciso deixar pausa nas falas, segundo Steiner, nós escutamos com os nossos órgãos da fala mais do que imaginamos. O falar sem pausa interfere nesse processo, pois a fala humana vem da parte mais interior que temos e que também precisa ser ouvido.

A fala de um bom Coach deve ter um “grau” de natureza espiritual, que pode ser evocado pelos conteúdos dados pela Antroposofia.

Como complemento ao que foi visto até agora, acho importante sintetizar o que Carl Rogers, o criador da terapia centrada no individuo, deixou como ensinamento:

  • Julgar é uma grande barreira à comunicação.
  • Criar ambiente de confiança e liberdade de expressão libera sentimentos genuínos.
  • A postura de aceitação por parte do terapeuta (o coach no caso), é o caminho para o cliente se aceitar e, só então, ser capaz de mudar.
  • O terapeuta precisa compreender os sentimentos do cliente como ele próprio os compreende.
  • Todo organismo tem tendência natural para a saúde, o desenvolvimento e a maturidade, mas precisa se sentir aceito e estar num ambiente seguro.

Por caminhos diferentes, o físico norte-americano David Bohm chegou a conclusões semelhantes. Ele foi um dos pais da física quântica, na década de 1940. Até os anos 90, quando morreu, Bohm lutou para resolver os paradoxos criados pela física quântica. A certa altura, percebeu que o problema não estava nas equações, e sim na nossa lógica. Começou, então, a promover os Grupos de Diálogo no MIT (Massachusetts Institute of Technology), convicto de que a lógica do discurso é a lógica do pensamento e, portanto, mudando a primeira automaticamente a segunda também muda.

Para David Bohm, o pensamento é gerado e sustentado coletivamente. Entretanto, achamos que produzimos os pensamentos individualmente e, pior ainda, os consideramos quadros verdadeiros da realidade. Assim identificados com as nossas verdades pessoais, nos protegemos quando nossa opinião é atacada.

Espero que este conteúdo possa inspirar o seu trabalho como Coach ou Mentor de pessoas que o destino colocou no seu caminho!

A seguir uma bibliografia básica, além das citadas nas notas, que serviram de base para a elaboração deste texto e que ampliam a compreensão da Arte da Fala:

  • “The Seer´s Handbook – Dennis Klocek – Steiner Books
  • “A alma Humana” – Karl Konig – Editora João de Barro.
  • “Artigo: Conversas Paralelas” – Maria Luiza Oliveira – Willis Harman House
  • “A Quinta Disciplina” – Peter senge
  • “CVV: uma proposta de vida” – Flávio Focássio, Jacques  Conchon, Valentim Lorenzetti.
  • “Diálogo: redescobrindo o poder transformador da conversa” –  Linda Ellinor e Glenna Gerard.
  • “Dialogue” –  William Isaacs
  • “Eu e tu” –  Martin Buber
  • “On dialogue” David Bohm
  • “Orientação não diretiva em psicoterapia e psicologia social” Max Pagès.
  • “Orientação não-diretiva” –  Franz Victor Rudio
  • “Pramáticatica da Comunicação Humana” –  Paul Watzlawick, Janet Beavin e Don Jackson.
  • “Terapia Centrada no Cliente” –  Carl Rogers
  • “The Magic of Dialogue: Transforming Conflict into Cooperation” –  Daniel Yankelovich.
  • “Tornar-se Pessoa” –  Carl Rogers.

 

[1] “The art of lecturing” – Rudolf Steiner – Dornach, outubro de 1921

2 comments on “A arte da fala com propósito para Coaches

  1. Espetacular a forma simples e clara que você colocar estes conceitos complexos.
    Sair da racionalidade para o sentir cada palavra dita e cada respiração que trás palavras não ditas pelo Coachee faz a diferença do Coach profissional

  2. Oi Jair!
    Gostei muito do texto, provoca boas reflexões sobre a nossa profissão “Coaching”, com especial destaque para como lidar com o sentir. A “Abordagem Centrada na Pessoa” cujo precursor foi Carl Rogers, faz parte importante da minha maneira de trabalhar como Coach, pois acredito que a relação de confiança que construo com o Coachee é mais importante que a técnica. Preciso ser congruente com o que eu sinto também, pois faço parte da relação.
    Obrigado por compartilhar o texto.
    Abraço,

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